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Sardinha Pequenina

A Sardinha Pequenina tem como propósito contar histórias de gente real, aliando o poder da palavra escrita à qualidade e originalidade dos produtos. As pessoas reais inspiram-nos!

Alexandra

25.01.23

Há gente que não sabe. Nem sonha.

Que tem o sol dentro do peito.

Que os seus olhos são casa.

E o seu sorriso aconchego.

Há gente que não imagina a leveza que tem.

Ou poder dos seus gestos.

Há gente que caminha por aí.

Despretensiosamente

Olhando os outros nos olhos.

Fazendo-se presente.

E tornando o outro presente. Só porque o viu.

E sorriu. Cumprimentou. Agradeceu.

 

Mamã: qual é o teu sonho?

17.10.22

Ela perguntou: "Mamã, qual é o teu sonho?"

Olhei para o seu rosto risonho e para os seus olhos curiosos.

O que deveria eu responder? Que exemplo poderia eu dar?

Já tive vários sonhos. Foram moldados ao longo do tempo.

Fiz e refiz vários objetivos. Rasurei projetos. Construí novos planos.

Mas, quando ela me inquiriu, soube que eu devia - e queria - ser exemplo.

Por mim. Por ela.

Para que ela saiba que dentro de um coração de mãe, cabem todos os sonhos do mundo.

Para que ela saiba que um coração que deseja muito pode tudo. 

Respirei fundo e contei-lhe um segredo.

Sorriu. E prometeu discrição.

Não sabe que lhe dei um pedaço da minha alma para guardar junto do seu coração pequenino.

Para fazer dos meus sonhos, combustível para os seus.

Dia Mundial da Saúde Mental

10.10.22

Os tijolos de que somos feitos podem ruir. Todas as casas, mesmo as mais sólidas, podem desabar.

Outubro de 2019 trouxe-me o diagnóstico de melanoma da minha mãe. Quando soube, tremi. Sabia que tínhamos poucas armas para usar contra este inimigo. E que, provavelmente, a fé inabalável da minha mãe não iria salvá-la.

Acompanhei a minha mãe - dia após dia. Vi o seu corpo transformar-se. Nunca cedi à frente da minha mãe. Mas chorei muitas vezes. E percebi que eu precisava de ajuda para poder ajudar a minha mãe. Para ajudar a minha família. Mas, principalmente, para me poder ajudar a mim própria.

Foi dentro de um gabinete que me (re)encontrei. Graças à ajuda de um psicólogo, adquiri ferramentas que me permitiram lidar com a doença e o luto. Falei-lhe de mim. Da minha mãe. Da minha família. E de muito mais.

Percebi também que, pelo caminho, tinha perdido a Ana. Por aí. Não sabia bem onde a tinha deixado. Talvez a tenha abandonado quando trabalhava horas a fio. Ou nas férias que não tive. Talvez a tenha deixado no meio dos livros, que tinha deixado de ler.

Respondi a questões e aprendi a fazer perguntas. Aprendi a gerir a ausência súbita da avó na vida da minha filha. Aprendi como reagir a uma família que procurava as respostas que eu não podia dar. Aprendi como lidar com as perguntas discretas e indiscretas de quem queria saber da minha mãe.

Entre o diagnóstico e a morte da minha mãe, passaram cerca de seis meses. Fui atropelada por um camião durante esse período e durante os meses que se seguiram. Morri e nasci de novo. Depois da morte da minha mãe, demorei a encontrar-me. Valeu-me o companheiro de todas as horas. O sorriso da minha filha. Os telefonemas daqueles que, mesmo longe, nunca me largaram. A certeza da cumplicidade da minha irmã. E o papel – onde voltei a encontrar a Ana.

A Ana que re(encontrei) não é a mesma que perdi. Aprendeu mais. Sobre ela. Sobre os outros. Gosta mais de gente que chora. De gente que cai e se reconstrói.

Hoje, a Ana sabe que todas as casas podem ruir. Desengane-se quem pensa o contrário.

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P.S. – Assinala-se hoje o Dia Mundial da Saúde Mental. Faça da sua saúde, prioridade!

 

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Essa gente

13.09.22

Gosto de gente desalinhada. Que teima em desenhar as suas próprias rotas. Que dança pela vida. Que canta em dias de chuva. E que se emociona com gestos simples.  

 

Gosto de gente que surpreende. Que, por parecerem ser nada, são tudo. Pelo que são. Pelo que dão.

 

Gosto de gente com voz. Com alma. Com mente irrequieta. Gente que é gente. Que faz da sinceridade coluna vertebral. E da valentia o compasso do coração.

 

Gosto de gente de sorriso fácil. De lágrima honesta. De olhos que falam. Gente que grita. Que sorri. Que chora. Que erra. Que beija. Que abraça. Que perdoa.

 

Gosto de gente cujos pedestais são feitos de respeito dos outros. Construídos com o carinho daqueles que conquistaram. Certamente essa gente, que é gente especial, vive mais perto do céu por fazer a diferença na terra.

 

 

Dia de todos os Santos

02.11.21

Há um local onde posso estar contigo.

Onde só tu, no silêncio, me escutas.

Onde, sabendo que não estás, te julgo encontrar sempre.

A tua casa deixou de ser nossa.

E por isso tive de te procurar em outro local.

Percorri um longo caminho até finalmente te encontrar.

Revi a minha perspetiva sobre o chão que encerra histórias.

E, pouco a pouco, comecei a encontrar algum significado para a terra.

Para as pedras. Para as flores.

 

Quatro muros encerram o teu fim.

Guardam a tua história e a história de tanta gente.

São antepassados. Partes de nós.

Pergunto-me se cada lágrima lá deixada, entre quatro muros, chegará até eles.

Até ao céu. Onde, certamente, ouvem os murmúrios e as preces.

 

Olho para os rostos que se cruzam comigo.

Que, num ritual mágico, transformam saudade em flores.

Que tombam sobre lápides.

Que choram por quem já se foi.

Naquele terreno árido, onde poucas flores ousam brotar, descobri que há muito de nós.

De todos nós.

E que as perspetivas sobre locais e tradições podem mudar.

Assim o obriga a vida.

 

É bom saber-te em algum local.

Tempo contado

04.06.21

Tivesse eu mais tempo contigo e aquele passeio seria mais longo.

A chávena do café ia demorar até chegar aos lábios. 

Iria observar com mais cuidado todos os teus gestos.

Todas as tuas expressões. As tuas rugas. O teu sorriso.

 

Tivesse eu mais tempo contigo e deixaria ficar a minha mão na tua.

Para sentir os teus dedos. Para sentir o teu calor.

Iria memorizar cada linha da tua mão. Saberia desenhá-las.

Apertaria a tua mão com força enquanto sorrias para mim. 

 

Tivesse eu mais tempo contigo e dir-te-ia tudo o que ficou por dizer.

Escutaria os teus conselhos sobre tantos assuntos que gostaria de ter discutido contigo.

Perguntaria qual o segredo do arroz de pato.

Perguntaria tudo sobre nódoas difíceis.

E ia deixar-te falar. Sobre coisas banais. Sobre coisas importantes. 

 

Tivesse eu mais tempo contigo e abraçar-te-ia mais.

Para que eu pudesse memorizar o teu cheiro.

Para que eu pudesse sentir o teu coração.

Para que tu também pudesses levar mais de mim contigo.

 

Mas o tempo foi curto. Muito curto.

O tempo estava contado e nós não sabíamos.