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Sardinha Pequenina

A Sardinha Pequenina tem como propósito contar histórias de gente real, aliando o poder da palavra escrita à qualidade e originalidade dos produtos. As pessoas reais inspiram-nos!

Essa gente

13.09.22

Gosto de gente desalinhada. Que teima em desenhar as suas próprias rotas. Que dança pela vida. Que canta em dias de chuva. E que se emociona com gestos simples.  

 

Gosto de gente que surpreende. Que, por parecerem ser nada, são tudo. Pelo que são. Pelo que dão.

 

Gosto de gente com voz. Com alma. Com mente irrequieta. Gente que é gente. Que faz da sinceridade coluna vertebral. E da valentia o compasso do coração.

 

Gosto de gente de sorriso fácil. De lágrima honesta. De olhos que falam. Gente que grita. Que sorri. Que chora. Que erra. Que beija. Que abraça. Que perdoa.

 

Gosto de gente cujos pedestais são feitos de respeito dos outros. Construídos com o carinho daqueles que conquistaram. Certamente essa gente, que é gente especial, vive mais perto do céu por fazer a diferença na terra.

 

Dia de todos os Santos

02.11.21

Há um local onde posso estar contigo.

Onde só tu, no silêncio, me escutas.

Onde, sabendo que não estás, te julgo encontrar sempre.

A tua casa deixou de ser nossa.

E por isso tive de te procurar em outro local.

Percorri um longo caminho até finalmente te encontrar.

Revi a minha perspetiva sobre o chão que encerra histórias.

E, pouco a pouco, comecei a encontrar algum significado para a terra.

Para as pedras. Para as flores.

 

Quatro muros encerram o teu fim.

Guardam a tua história e a história de tanta gente.

São antepassados. Partes de nós.

Pergunto-me se cada lágrima lá deixada, entre quatro muros, chegará até eles.

Até ao céu. Onde, certamente, ouvem os murmúrios e as preces.

 

Olho para os rostos que se cruzam comigo.

Que, num ritual mágico, transformam saudade em flores.

Que tombam sobre lápides.

Que choram por quem já se foi.

Naquele terreno árido, onde poucas flores ousam brotar, descobri que há muito de nós.

De todos nós.

E que as perspetivas sobre locais e tradições podem mudar.

Assim o obriga a vida.

 

É bom saber-te em algum local.

Tempo contado

04.06.21

Tivesse eu mais tempo contigo e aquele passeio seria mais longo.

A chávena do café ia demorar até chegar aos lábios. 

Iria observar com mais cuidado todos os teus gestos.

Todas as tuas expressões. As tuas rugas. O teu sorriso.

 

Tivesse eu mais tempo contigo e deixaria ficar a minha mão na tua.

Para sentir os teus dedos. Para sentir o teu calor.

Iria memorizar cada linha da tua mão. Saberia desenhá-las.

Apertaria a tua mão com força enquanto sorrias para mim. 

 

Tivesse eu mais tempo contigo e dir-te-ia tudo o que ficou por dizer.

Escutaria os teus conselhos sobre tantos assuntos que gostaria de ter discutido contigo.

Perguntaria qual o segredo do arroz de pato.

Perguntaria tudo sobre nódoas difíceis.

E ia deixar-te falar. Sobre coisas banais. Sobre coisas importantes. 

 

Tivesse eu mais tempo contigo e abraçar-te-ia mais.

Para que eu pudesse memorizar o teu cheiro.

Para que eu pudesse sentir o teu coração.

Para que tu também pudesses levar mais de mim contigo.

 

Mas o tempo foi curto. Muito curto.

O tempo estava contado e nós não sabíamos.