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Sardinha Pequenina

A Sardinha Pequenina tem como propósito contar histórias de gente real, aliando o poder da palavra escrita à qualidade e originalidade dos produtos. As pessoas reais inspiram-nos!

Dia Mundial da Saúde Mental

10.10.22

Os tijolos de que somos feitos podem ruir. Todas as casas, mesmo as mais sólidas, podem desabar.

Outubro de 2019 trouxe-me o diagnóstico de melanoma da minha mãe. Quando soube, tremi. Sabia que tínhamos poucas armas para usar contra este inimigo. E que, provavelmente, a fé inabalável da minha mãe não iria salvá-la.

Acompanhei a minha mãe - dia após dia. Vi o seu corpo transformar-se. Nunca cedi à frente da minha mãe. Mas chorei muitas vezes. E percebi que eu precisava de ajuda para poder ajudar a minha mãe. Para ajudar a minha família. Mas, principalmente, para me poder ajudar a mim própria.

Foi dentro de um gabinete que me (re)encontrei. Graças à ajuda de um psicólogo, adquiri ferramentas que me permitiram lidar com a doença e o luto. Falei-lhe de mim. Da minha mãe. Da minha família. E de muito mais.

Percebi também que, pelo caminho, tinha perdido a Ana. Por aí. Não sabia bem onde a tinha deixado. Talvez a tenha abandonado quando trabalhava horas a fio. Ou nas férias que não tive. Talvez a tenha deixado no meio dos livros, que tinha deixado de ler.

Respondi a questões e aprendi a fazer perguntas. Aprendi a gerir a ausência súbita da avó na vida da minha filha. Aprendi como reagir a uma família que procurava as respostas que eu não podia dar. Aprendi como lidar com as perguntas discretas e indiscretas de quem queria saber da minha mãe.

Entre o diagnóstico e a morte da minha mãe, passaram cerca de seis meses. Fui atropelada por um camião durante esse período e durante os meses que se seguiram. Morri e nasci de novo. Depois da morte da minha mãe, demorei a encontrar-me. Valeu-me o companheiro de todas as horas. O sorriso da minha filha. Os telefonemas daqueles que, mesmo longe, nunca me largaram. A certeza da cumplicidade da minha irmã. E o papel – onde voltei a encontrar a Ana.

A Ana que re(encontrei) não é a mesma que perdi. Aprendeu mais. Sobre ela. Sobre os outros. Gosta mais de gente que chora. De gente que cai e se reconstrói.

Hoje, a Ana sabe que todas as casas podem ruir. Desengane-se quem pensa o contrário.

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P.S. – Assinala-se hoje o Dia Mundial da Saúde Mental. Faça da sua saúde, prioridade!

 

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